A Crise do Masculino

“Seja o que for a masculinidade, ela é muito prejudicial aos homens.” – Heather Formani
Homem X Mulher
No decorrer da história, nossa sociedade testemunhou numerosas mudanças sociais no comportamento dos homens, desde o abandono da frivolidade no século XIX, até o retorno desta nas últimas décadas do século XX. Esses últimos 50 anos foram marcados por mudanças nos papéis e expectativas do masculino e do feminino. No entanto, as transformações sociais das mulheres é que têm sido o foco de atenção, provavelmente porque ocorreram de maneira mais óbvia e rápida. Em relativamente pouco tempo, as mulheres conseguiram entrar no mundo do trabalho, ganhar direitos como cidadãs e até aderir a modas masculinas, enquanto os homens permanecerem mais estáveis, em seu posicionamento. O espaço conquistado pela mulher na sociedade teve um impacto significativo para marcar o começo das transformações na “natureza” masculina.
A dominação masculina contra o feminino atravessou a história. O poder de definição pertencia ao homem e a sociedade era regida por ele. Em um mundo no qual os homens podiam tudo, as mulheres ocupavam uma posição subalterna, não tinham direitos, facilitando assim, o domínio deles sobre elas. E foi assim durante muitos séculos, até o século XX que, de certa maneira, trouxe oportunidades para o avanço social das mulheres e para a luta pelos seus direitos.
Durante a Segunda Guerra Mundial, mais e mais mulheres entraram no mercado de trabalho para poder sustentar a si e a sua família. A maioria desses trabalhos era considerada tarefas masculinas que utilizava principalmente o trabalho braçal, como era o caso das fábricas. Portanto, o que era antes estritamente masculino passou a ser unissex – pelo menos temporariamente. O trabalho remunerado mudou totalmente a vida das mulheres. Na ausência dos homens, que se encontravam na Europa, nos campos de batalha, as mulheres passaram a ter controle do próprio dinheiro e gastar como lhes conviesse; conquistaram a independência. Posteriormente, quando o fim da guerra obrigou-as a voltar aos seus afazeres domésticos, os avanços sociais conquistados por elas não desapareceram por completo.
Não restam dúvidas de que a Guerra foi um fator importante que acelerou o processo de integração da mulher no mercado de trabalho. Paralelo a isso, os tecidos e as roupas em geral passaram a ser mais simples, pois os países envolvidos no conflito não podiam investir tanto dinheiro e mão de obra em outros tipos de atividades que não fossem aquelas vinculadas à guerra. Assim, as roupas femininas se adaptaram à nova realidade, tornando-se mais práticas, simples e “masculinizadas”, sendo, inclusive mais apropriadas para o dia-a-dia no trabalho. Em outras palavras, a Guerra ajudou as mulheres a se infiltrarem no universo masculino sem ter que abandonar o próprio território, e sem perder o conceito de feminilidade. Elas não deixaram de ser mulheres e nem passaram a ser consideradas menos femininas por assumirem atitudes antes reservadas aos homens, pois na época era necessário.
Trevisan, em seu livro Seis balas em um buraco só, defende a idéia que os homens têm dificuldade em aceitar características rotuladas femininas. Para o homem, se assemelhar a uma mulher é quase como abrir mão da própria masculinidade que, para eles, não é somente uma opção sexual, mas sim um conjunto de valores que determinam o que é ser macho. Pode-se dizer que essa questão do “ser macho” é um dos motivos que mantiveram os homens presos a um único padrão de vida, imagem e estilo.
No entanto, nas últimas décadas, em resposta a significativas mudanças sociais, deparamo-nos com um fenômeno relativamente novo, denominado “crise do masculino”. Esta “crise” na verdade faz parte de um contexto maior de mudanças nos valores sociais, que permitiu abrir espaço para uma discussão sobre o homem contemporâneo e o seu papel na sociedade, trazendo novos valores e conceitos para a definição do masculino. Esse capítulo tem o objetivo de analisar os possíveis motivos que causaram essa “crise de masculinidade” e os efeitos que esta gerou para os homens e para a sociedade atual.

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